27 abril 2021

corpo não mente

processos

sem progressos

de dores 

e rigores


parei


e não mais sobre tudo

me culpo


reparei


que, sobretudo,

é do corpo

antes oculto

que hoje me ocupo


(2020) 

11 abril 2021

miando e galeando

debaixo dessa linha

ecoa

dor

(2015)



"-- Na verdade, caminho muito a vida, gosto muito de caminhar. 

 -- E você tem uma rotina de caminhar?

 -- Não, o que eu gosto é de caminhar por isso que chamamos de rio-mar, andar à beira das águas, e assim economizo uma fortuna em psicanálise."


Ele também disse que cair e levantar é normal, mas há aqueles que não se levantam nunca: os mais sensíveis. Outros, filhos da puta, não têm uma glândula rara, a consciência, e vivem um monte, não morrem nunca. Pensar é ter angústia. Sentir é ter solidão.

03 abril 2021

crônica sobre o negativo


 

    São 4 imagens. Na primeira, apoiada na janela de um fusca, vejo uma criança assim bem pequena, como que um bebê que acaba de aprender a se equilibrar para andar. Tanto é que, na segunda cena, a criaturinha está em pé, com a porta do antigo carro aberta, em cima do banco do motorista, com o volante de três vezes mais o tamanho de sua cabeça. Depois, fora do automóvel, apenas ela, criança, servindo de modelo entre a paisagem de grades e janelas. Por fim, não um, mas dois fuscas encerram a sequência do filme fotográfico que encontrei anteontem, na Piauí, a caminho da Igreja que tem me feito companhia em tempos pandêmicos.

    Olho para os retratos e, numa espécie de agradecimento, sorrio para a calçada que entregou a meus pés alguma inspiração para escrever: mas não mais poesias. E sobre isso dedicarei um parágrafo.

    Por mais de uma década fui fiel à poesia. Tivemos bons momentos. Muitos, inclusive, diziam-me para levá-la adiante, para o mundo, para todos e cada um. Acontece que, com 10 anos de distância, enxergo a fantasia sobre mim que escrevi ali, junto dos versos e rimas e trocadilhos geniais. Uma fantasia sábia, romântica, profunda, que impedia o contato com alguma realidade de sabedoria, romance, profundidade. Agora, menos imersa nesse devaneio de mim mesma, escolho um jeito não tão enigmático e iludido para minhas palavras que, não, essas nunca poderei parar.

    -- Você se tornará sadia completamente em algum momento da sua vida? -- me pergunta o último cara que conquistei com minhas poesias requentadas. Eu, que até recentemente era uma presa da criminosa ideia de perfeição, completude, totalidade e plenitude, sei que não. Tive que saber. Adoeci para saber. "É preciso aprender a não saber", como disse alguém.

    Hoje, olho para a saúde do negativo, reconheço o benefício do ódio, reverencio a inveja e respeito o medo. Como uma pilha, minha energia não distingue os polos de mais e de menos, e precisa de ambos igualmente para existir. Exercito essa contemplação do horrível, tornando-o só um tanto estranho, e assim só um tanto diferente, e o diferente, sabemos, é necessário.

    Talvez menos homens se apaixonem por mim, talvez eu mesma me apaixone menos assim, não poeta. Mas a poesia que desfruto nos ordinários de, por exemplo, tropeçar com uma criança no fusca, que a contraluz do sol me revela num pedaço de negativo, permanecerá irremovível.

30 março 2021

agora não



não faço mais

poesia

não leio mais os livros

que lia

que na verdade sempre pouco

o fazia


e agora

até (me) parece

é que vejo o quanto achava

que sabia


agora que um pouco sei

é quando nada faço

nada sou


acho que os sábios são meio assim:

meio nada


(2013)

27 março 2021

dois de abril




hoje é aniversário do meu pai

será que, quando ele nasceu,

eu nasci?


(2011)

nada de novo

com o nascimento das aulas de filosofia

veio o morrimento da vontade de escrever

pois que toda essa minha

esse meu 

esse isso

já foi pensado pelos gregos

e sentido e vivido


e nesses todos

anos e séculos e milênios

aposto que

as coisas dentro de mim

já existiram


(2011)


ali era o amanhã do homem


a poesia é um músculo.