11 julho 2021
sem o com
alguns reparos
rio e choro
20 junho 2021
eu apagando
tive um sonho instigante. em um dado momento da dada trama, dois homens velhos se abraçavam chorosos e culposos.
"-- pronto, eu já apaguei tudo! está tudo apagado! agora a gente só vai ter de lidar com isso na nossa memória.", num tom forte, apesar de temeroso, era o que dizia um para o outro. a última poesia que publiquei aqui foi ditada por esse sonho.
interessante que dei a ela o nome de "sobre memórias". e agora penso no 'sobre' não como 'a respeito de', mas como 'acima', 'por cima'. dando-me a impressão de viver pondo algo em cima das memórias. não falando delas mas as cobrindo. agora... cobrindo como quem não quer ver ou como quem quer acobertar?
no sonho, o tom das coisas é mesmo de um crime. mas penso sobre narrativa, sobre lembrar para não esquecer e, com isso, não repetir. lembrar como elaboração.
tola de mim supor que tenho alguma deliberação sobre isso. memória é coisa que se impõe.
o mais inacreditável é que, não bastasse a relação estranha que comecei a perceber de mim com meus registros, meus arquivos e backups sofreram também algum delete. vim motivada ao encontro das galerias e pastas dos aparelhos e notei que muitas fotos e lembranças sumiram. e, nesse caso, eu não tive responsabilidade alguma. quer dizer, mesmo em busca de restaurar meu trato com o passado, parece que têm coisas que devem mesmo se esvair.
talvez o meu imaginário sobre a chegada de minha terceira década, algo que venho meditado consideravelmente, esteja influenciando essa atmosfera de refletir a propósito de quem sou, o que fiz até aqui, qual minha história, etc. talvez seja o retorno de saturno, para dialogar com a astrologia. mas acho mais que se trata de confiar no caleidoscópio inconsciente e suas escolhas do que deve ser rememorado a cada momento, conforme a ordem da nossa fila de subjetividades à espera de atenção. acho.
sempre acho. nunca encontro.
27 maio 2021
te dedico, amigo
nesse sentido, os sebos em que trabalhei ajudavam na montagem dessa 'história da história', porque em sebo sebemos, digo, sabemos que juntas vão as anotações, marcações e elas, as dedicatórias.
um dos enredos que criei na minha cabeça foi o de um casal de namoradas que se separou. uma delas, mônica, foi atrás de se desfazer das lembranças da ex, e isso incluía o livro que dela tinha ganhado. livro literalmente dela, uma vez que era a autora dedicando o livro para a companheira. ludmila. escrevia sobre poesia erótica. eu, lá no sebo, li a dedicatória de ludmila para a namorada mônica, e... bem, se o livro estava lá é porque algo tinha chegado ao fim.
e assim inventei algumas novelas das vidas dos outros para mim.
uma das mais belas cenas nessa ilha de edição que são nossas lembranças, foi a que encontrei em 'canto memorial', um livro onde luciano maia mapeia poeticamente a tragédia de pablo neruda. naquela folha de rosto, estava escrito:
"para a ana e o rubens, com o abraço do luciano maia. 1984".
em seguida, mais à esquerda:
"para outros. 2008".
achei a coisa mais linda essa conversa entre as dedicatórias, essa poesia incluída na percepção sutil desse alguém que surge 24 anos depois.
no futuro, estaria eu mesma participando dessa corrente espontânea de dedicar:
"agora, para o ângelo. 2015".
e o acaso não poderia ter reservado nome melhor a esse livro que eu daria ao meu amigo. ângelo é um ser fascinado pela memória, intrigado em saber o que é isso da gente que lembra e não lembra, e porque, quando e como. em uma de nossas prosaicas conversas, ele disse um dia que "o problema é que chega um momento que, conforme o tempo passa e envelhecemos, não se esquecem mais algumas coisas." como se se referisse às responsabilidades do adulto que não age mais tanto sem pensar e, logo, sem lembrar.
ângelo também é quem revisou minhas poesias e escritos antigos, me ajudando numa caseira curadoria daquilo que eu poderia requentar e levar adiante como escritora, e, mais ou menos assim, surgiu esse blog em que você está agora. se é que tem alguém aqui lendo. alguém além do ângelo, claro.
mas, para você que eu sei que está lendo, querido, caro, amigo e camarada ângelo: muito obrigada por existir e, apesar das distâncias, nunca estar distante. aprendo sobre envelhecer, sobre memória, e sobre amizade com você.
ah,
e feliz aniversário!
"agora, de novo, para o ângelo. 2021".